Saúde e DDHH
30/07/2019
Nota contra ataques de garimpeiros aos Wajãpi no Amapá
Publicamos abaixo uma nota da presidente da AIAM (Associação Indígena da Aldeia Maracanã), Marise de Oliveira sobre os recentes ataques aos índiois Wajãpi, no Amapá, que resultaram no brutal asssassinato do cacique Emyra Wajãpi.
 
Wajãpi: Resistência em defesa da Mata e da vida.
 
Neste sábado, 27/08/2019, fomos surpreendidos com a grave notícia de que 50 garimpeiros fortemente armados invadiram a aldeia de Mariry, em Pedra Branca do Amapari, Amapá e que o cacique Emyra Wajãpi foi brutalmente assassinado com várias facadas e seu corpo jogado no Rio. Ele estava  retornando para sua aldeia após visita à sua filha que mora em outra terra indígena do mesmo povo. A partir daí várias notícias foram compartilhadas nas redes sociais, o que considero importante para que a população brasileira tome conhecimento da violência praticada contra os povos indígenas e a dilapidação de nossos recursos naturais, nos últimos quase sete meses com mais intensidade.
 
Os Wajãpi ocupam, há séculos, uma vasta área situada nos confins do Brasil e da Guiana Francesa, delimitada pelas bacias dos rios Jari, Oiapoque e Araguari e há algumas décadas, o avanço das cidades trouxe os garimpeiros e suas doenças para as terras dos Wajãpi, quase dizimaram a população com sarampo, gripe e outras doenças infecto contagiosas, chegando na década de 70 a apenas 151 indivíduos. Assim os Wajãpi iniciaram um processo de resistência contra invasores de suas terras. Multiplicaram-se e hoje contam com mais de 1 mil pessoas.
 
Considero importante explicar o que tem levado episódios como este, cujo desfecho é tão terrível para nós indígenas. Hoje temos segundo levantamentos, não só a partir de relatos das etnias indígenas, mas também por pesquisas de campo e de satélites que há aproximadamente 20 mil garimpeiros em terras indígenas de vários povos país afora, cujas denúncias estão nas redes sociais para quem quiser ler e nenhum plano governamental para sanar esta situação.
 
Tal invasão não começou agora, mas nos últimos seis meses a violência contra os povos indígenas vem acelerando, alimentado pela ganância, pela ignorância e pelos discursos alinhados com o agronegócio do atual Presidente, cujas mineradoras provavelmente financiam tais garimpeiros para matarem lideranças espalhando o medo e a insegurança na população indígena expulsando comunidades tradicionais que têm direitos Constitucionais de usufruir de seu território.
 
Em 2017, Michel Temer, tentou extinguir a Reserva Nacional do Cobre e Associados (RENCA), uma região que abriga muitas reservas ambientais e indígenas, dentre eles, o povo Wajãpi. O objetivo era atrair empresas para exploração de minério nessa área de floresta. Ele só não contou com a resistência de ambientalistas, artistas, movimentos sociais, movimento indígena e a imprensa internacional que exigiram a anulação do decreto. Este recente conflito entre garimpeiros e o povo Wajãpi teve inicio dia 22 com o assassinato do cacique Emyra no final da tarde, na região da sua aldeia Waseity, próxima à aldeia Mariry, cujo corpo só foi descoberto no dia seguinte (23). Na sexta-feira, dia 26, os Wajãpi da aldeia Yvytotõ, que fica na mesma região, encontraram um grupo de não-índios armados nos arredores da aldeia e avisaram as demais aldeias pelo rádio. Naquela mesma noite a aldeia foi invadida, o que provocou a fuga da
população para a aldeia Mairiry e na madrugada de sexta para sábado, moradores da aldeia Karapijuty avistaram mais invasores perto de sua aldeia. A PF e a FUNAI segundo lideranças chegaram o local para distencionar a área neste domingo.
 
O que precisamos nos perguntar é: A quem interessam estes conflitos? O que podemos fazer para modificar esta situação? De quem é a culpa? Envenenar os rios e peixes com mercúrio, desmatar indiscriminadamente a floresta amazônica e aceitar como fato inexorável a morte de pessoas que vivem  há séculos nestes territórios cujo direito de usufruto está na Constituição Federal, nos atingem? Direi a vocês que atinge sim! Sem mata preservada, não haverá RIOS VOADORES que trazem as chuvas para o Sudeste, garantem a VIDA! Sem respeito à Diversidade de plantas, animais e seres humanos, nossa sociedade perde qualidade, perdemos enquanto povo que defende a Democracia e sem todos, o que existe é privilégio de alguns, perdemos enquanto humanos, enquanto sociedade. Perdemos o futuro, pois sem toda esta riqueza que os povos indígenas perdem a vida para resguardar, que futuro você está garantindo
para seu filho, seus netos? Defender a natureza é a única forma de garantirmos a espécie humana neste planeta.
 
(Marize Vieira de Oliveira- Pará Reté é Presidente da AIAM, Associação Indígena Aldeia
Maracanã).
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